12/15/2009



Publicado também aqui.

Tártaro

Para além de ser um inferno para os gregos e um grande problema para os dentes, o Tártaro tem outra maneira de ser fruído. É um bife. E devo dizer que, além de alcaparras, leva um ovo. E é aqui que a minha veia mítica (fica mesmo ao lado do coração, junto à aorta) brada aos céus (o oposto de Tártaro). Então os tártaros -- que diziam que se não os deixassem entrar a cavalo no Paraíso, montavam na respectiva cavalgadura e partiam para o inferno -– prestam-se a ver o seu nome numa receita onde a gema é misturada na carne, enquanto o sórdido bitoque tem direito a um ovo a cavalo?

12/10/2009

As grandes aspirações do Homem concretizadas

Dantes vivia no presente como fazem os budistas. Agora, vivo no futuro: tenho, neste momento, um robô a aspirar-me a casa.

12/04/2009

Do Gulistan, com toda a ingenuidade

Um rei condenou à morte um inocente. E este disse assim: «Ó rei, não faças mal a ti mesmo com a cólera que sentes por mim.»
«O que queres dizer?», perguntou o rei. E o condenado respondeu: «O meu castigo será consumado em alguns instantes, mas a culpa pesará sobre ti para sempre.»
Hoje, em cima da balança, comecei a temer o pior: estou a tornar-me o Conrado Fortes.

11/28/2009

Ontem, no restaurante, um episódio sin grasa

Para que uns italianos entendessem aquela parte da ementa, o empregado explicou em espanhol: É bife sin grasa.
Suseia significa mais alto, ultreia significa mais além. Plateia significa que não há dinheiro para o balcão.

Envelhecer

Uns vão ligando mais à beleza interior, outros à beleza anterior.

11/27/2009

Só para contrariar

No Alcorão 6:144; 7:40; 7:73; 11:64; 12:65; 12:72; 56:55; 81:4; 88:17; fala-se em camelos. Só para contrariar Jorge Luis Borges que disse: "No Alcorão não aparecem camelos. Como foi escrito por árabes, não foram considerados necessários.”

(Inédito da Enciclopédia da Estória Universal)

11/26/2009

Lei da Compensação

David tinha alma de Golias.

11/23/2009

Prémio literário Maria Rosa Colaço 2009

Queria informar um dos leitores deste blog (o outro já sabe) que, sexta-feira passada, recebi o prémio Maria Rosa Colaço 2009, da Câmara de Almada. A cerimónia decorreu sem problemas, apesar da minha presença.

11/14/2009

Gripe

Foi Pilatos que nos fez ver a importância de lavar as mãos frequentemente.

11/10/2009

Uma dúzia de dedos


 Uma das mais notáveis coincidências da anatomia humana é o facto de a maior parte das pessoas ter dez dedos nas mãos. É uma soma que me surpreende sempre que penso em Hound Dog Taylor. Ele tinha uma dúzia, como as caixas dos ovos, de dedos nas mãos. Diz-se que tentou, a certa altura da vida, cortar o excedente, mas todos sabemos que, especialmente para quem faz dieta ou é ministro das Finanças, é muito difícil cortar o excedente.
 Na verdade Hound Dog é um anti-Django. Django Reinhardt tinha oito dedos úteis. E, com tão poucos dígitos, era um virtuoso, característica que Hound Dog Taylor evitava. Diz quem sabe apreciar música, que Django era um primor enquanto Hound Dog Taylor não primava pela técnica. Até pode ser, mas soava bem. Foi ele mesmo que o disse: "When I die, they’ll say, ‘He couldn’t play shit, but he sure made it sound good!’"
Theodore Roosevelt "Hound Dog" Taylor nasceu em 1915 (há quem diga que foi em 1917) e morreu em 1975. O nome presidencial é apenas mais uma tragédia que pode acontecer na dramática vida de um bluesmen.

11/04/2009

Vivat Triple ou a questão da cuba aberta



Deus, não para provar a sua existência, mas para provar boas cervejas, criou os belgas (com os hebreus, por exemplo, não conseguiu um efeito tão espectacular, apesar da aliança, da circuncisão, de escreverem da direita para esquerda e isso tudo). Falo dos belgas porque a Vivat Triple é francesa. Mas sabe mesmo a belga.
Ora, ainda bem que me pergunta o que é uma triple. Estava mortinho por responder, é tão raro eu saber a resposta. Triple? pergunta o leitor. É muito simples, é uma cerveja com maior quantidade de malte, três vezes mais, para ser exacto. Esta Vivat vem numa garrafa de porcelana ou lá que metal é aquele, é muito bonita, e ainda nos garante, no rótulo, que é fermentada com a cuba aberta. Sem malícia, leitor, não comece já a imaginar a cuba aberta desta cerveja. Isto significa apenas que o fermentador não está isento de ser invadido por bactérias estranhas ao serviço, algumas selvagens, eventualmente indesejáveis, e, até, alguns organismos não oficiais que melhoram o processo de fermentação e o sabor da cerveja. No caso da Vivat Triple não sinto nada selvagem nas papilas gustativas. Ou seja, a cuba está aberta, sim senhor, mas numa sala fechada, o que garante a não contaminação do mosto por corpos estranhos, monstros microscópicos e fiscais da câmara. Não acho que esta exposição do fermentador ao ar seja uma grande vantagem, apesar de ser um método tradicional. Há, porém, quem jure que traz muitas coisas boas, mas, no que respeita ao meu paladar e sem auxílio de um bom astrólogo, não consigo identificar essas influências subtis.
Resultado: é uma cerveja excelente, aloirada e doce, com um sabor intenso a malte (sem exageros), com 8,3% de álcool, capaz de rivalizar com as melhores triple, as belgas verdadeiras.

Como diria Teixeira de Pascoaes, se por acaso se tivesse lembrado disto:

A perdiz é um pombo bravo em flor.

10/27/2009

Extra!

A Enciclopédia da Estória Universal tem um blog. Com textos exegéticos de Theóphile Morel.

10/23/2009



O booktrailer da Enciclopédia da Estória Universal. Animado pela Estrela Lourenço e sonorizado pelo José Mendes.

10/16/2009

Por causa das conchinhas

Fala-se muito do cheiro dos livros quando o tema são os leitores digitais. Concordo que os livros têm cheiro. Infelizmente. No outro dia – em Junho, mais propriamente –, na Feira do Livro de Lisboa, comprei um livro com bolor. Era um Chandler e, por isso, o mofo nem sequer é admissível; não estamos a falar de incunábulos, perdoem-me o calão. Não era nenhum Heródoto, nenhum Sexto Empírico e muito menos um roquefort. Se tiver de ler livros com cogumelos que não servem para cozinhar, prefiro um leitor digital. O nariz pode, na literatura, intervir num conto de Gógol, num pensamento de Pascal ou, implicitamente, na escrita de Cyrano, mas o que me entra nas narinas não considero literatura. Relembro que Santo Agostinho não gostava que, durante a missa, houvesse música ou incenso. São coisas que distraem o espírito, garantia ele.

Na minha hierarquia celeste – que compreende quatro assoalhadas e uma varanda relativamente pequena –, Diógenes de Oenoanda (século II d. C.) ocupa um lugar privilegiado junto do sofá da sala, perto da lareira. Esse lugar cimeiro tem feito com que, cada vez que tenho de escrever sobre alguma coisa, desde a próxima derrota do Sporting à criação de hamsteres, meto-o na conversa. Neste caso, porque esta discussão, sobre o suporte dos livros, não é nova. Lembro-me bem do tempo em que Diógenes de Oenoanda mandou construir um muro gravado com a súmula do pensamento de Epicuro. Vinte e cinco mil palavras numa parede de 80 metros de comprido por três de altura. Isso é que era um suporte físico: pedra fácil de ler e acessível a todos. Foi essa, aliás, a ideia de Diógenes. Ele era rico o suficiente para dar a sua maior riqueza, que era, no caso dele, o epicurismo. Há outras pessoas que se contentam com dinheiro. E agora, imagine o leitor, o arrepio que sentiram as distribuidoras ao colocar a hipótese daquele suporte poder vir a ter futuro.

E agora chegamos à conclusão onde se fala das tais conchinhas, mas o leitor, curioso como é, deverá dirigir-se a este blog para ler o que falta. É lá que está o texto completo.

10/15/2009

Pequena correcção ao Génesis

Deus, para criar um Mundo, não separou as águas. Rebentou as águas.

10/12/2009

Anticlericalismo primário

O meu filho, a olhar para uma ilustração da Morte e do Diabo (do livro “Era Uma Vez um Rei Conquistador”, Oficina do Livro), disse que eram, respectivamente, o Jack Skellington e o Papa.

A Ler

"Com a sua inabalável lógica interna e os seus recursos estilísticos, esta Enciclopédia da Estória Universal é o mais divertido, surpreendente e estimulante dos livros de ficção publicados este ano por autores portugueses."

(Revista Ler, Outubro de 2009)

10/10/2009

Deve então aguardar-se que esse sortilégio solidifique
e encontre no dentro a magia do fora
e no fora a magia do dentro.
Nesta altura não devem contar-se as estrelas
porque elas já estarão todas dentro do peito.

(Alburneo, "A Criança Mágica-Receita para fazer um bolo")

10/07/2009

O Mar em Casablanca

casablanca
[Foto Maria João Lima]

É hoje, às 22h00, na Cantina (Lx Factory, em Lisboa), o lançamento de O Mar em Casablanca. Mais informações no blog do autor.
Eu, lamentavelmente, porque estou no Campo em Casa Branca, não irei.

10/06/2009

Victor Hugo escreveu um livro muito grande chamado “Os Miseráveis”. Contudo, apesar de não ser pequeno, fê-lo terminar exactamente no fim, que é precisamente onde as coisas finitas se devem finar. Mas algures, entremeado no segundo volume, livro sétimo, avisa-nos o Victor: “Este livro é um drama, cuja primeira personagem é o infinito. A segunda é o homem.” E o leitor quando lê sobre a envergadura da primeira personagem, não consegue evitar a preocupação: impudente, vai à estante, retira o quinto volume, e certifica-se que tem um final, que a história acaba. É exactamente isso que acontece com as crianças em determinada fase, nos primeiros meses. Têm a ousadia de se julgar infinitas até que se apercebem dos próprios pés e, nesse momento, compreendem que terminam ali. Afinal, não passam da segunda personagem da obra de Victor Hugo.

Na creche do meu filho dizem-lhe -- quando se porta bem e à laia de elogio --, que já é um homem. No outro dia sentou um dos seus brinquedos (ele tem mais do que um, apesar da nossa resistência contra o consumismo desenfreado que se manifesta nestas idades pré-históricas) macaco de pelúcia no sofá e mandou-o ficar quieto. Depois, quando verificou que o macaco lhe obedecia, disse-me, elogiando-o:
-- O macaco já é um homem.
O darwinismo é uma teoria de crianças.

And the people in the houses
All went to the university,
Where they were put in boxes
And they came out all the same,
And there's doctors and lawyers,
And business executives,
And they're all made out of ticky tacky
And they all look just the same.
(Malvina Reynolds, "Little Boxes")

10/04/2009

«É difícil fazer melhor do que aquilo. Penso que nunca li um livro tão bom. Estava a corrigi-lo e ficava boquiaberto.»
António Lobo Antunes, sobre o seu novo romance, «Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?»

Da Floresta do Sul.

10/02/2009

O testamento de Rabelais

"Não possuo nada e tenho muitas dívidas. O resto deixo ao pobres."

Ah, o Oriente…

“Gosto muito do Japão”, diz o meu médico. Quando se começa assim uma conversa, espera-se uma apologia do sashimi acompanhada com anedota zen e arroz branco. Mas não. O que o meu médico gosta no Japão é que “lá, multam-se os carros que não estão impecavelmente limpos”. E admira o parque automóvel, todo composto por veículos novos.
Diz assim, o meu médico:
- Eles aumentam os impostos dos carros velhos, de modo a que as pessoas comprem novos. Os velhos, mandam para a China.
As receitas que ele passa para tratar do mundo, deixam-me pior da vesícula.

Grandes traduções

No filme Farenheit 9/11, um soldado americano no Iraque escreve à sua família, uma semana antes de morrer, e lê-se nessa carta: «I can’t wait to be with you». E que foi traduzido assim: «Estou morto por estar com vocês».
Das câmaras e dos tomates.

10/01/2009

Não gostar de dinheiro tem um preço

Luandino Vieira recusou, em 2006, receber o Prémio Camões por ter estado 30 anos sem escrever («uma injustiça para com os colegas que trabalharam e se esforçaram ao longo desses anos») e «não gostar de dinheiro».

Via Blogtailores.

9/28/2009

Sapatos e Chapéus

"Os Viyhokim, povo que habita junto aos Montes Golã, na Síria, nunca juntam o chapéu com os sapatos. Acreditam que Deus, no início, começou por criar um chapéu a que chamou «céu». E criou uns sapatos que chamou «Terra». Olhou para o chapéu e para os sapatos e pôs um homem lá no meio, entre o céu e a Terra. É por isso que os sapatos e os chapéus, para os Viyhokim, têm sempre de ter, pelo menos, um homem de distância."
(Enciclopédia da Estória Universal, letra "S")

9/27/2009

Tal como previa, o PCTP/MRPP não ganhou estas eleições.

9/24/2009

cordoba

Sexta, na Ler Devagar

É já amanhã o lançamento de 2666, de Roberto Bolaño – a partir das 23h00, na Livraria Ler Devagar (Lx Factory, em Alcântara, Lisboa).
Haverá margaritas, «acepipes mexicanos», shots de chili con carne e música (uma banda sonora com mariachis, corridos, polcas e boleros)
.

9/21/2009

Para quem não foi, o lançamento foi mais ou menos assim, assim e assim.

9/18/2009

Pré-publicação: ‘Enciclopédia da Estória Universal’, no Bibliotecário de Babel.

9/16/2009

Convite



O lançamento será neste sábado, dia 19, pelas 22h, na livraria Ler Devagar (LX Factory), inclui um concerto dos The Soaked Lamb e será apresentado pelo José Mário Silva.
A morada é esta: Rua Rodrigues de Faria, 103 - Edifício G.03 - 1300-501 Lisboa (antiga Gráfica Mirandela em Alcântara)

9/15/2009

Próximo livro

enciclopedia

Lançamento no dia 19 de Setembro, às 22h, na livraria Ler Devagar (LX Factory).

Texto da contracapa:

Este é um livro de factos - e de ficções, burlas, citações - esquecidos ou ignorados pela História e encruzilhados uns nos outros em forma de labirinto. Um espaço entre mordomos e coronéis, metáforas, mentiras, assassínios, deuses duplos, cabalistas fabulosos, ascetas hindus e narrativas absolutamente orientais.

«A matemática e a música são exactamente a mesma coisa (exceptuando, talvez, um ou outro sucesso pop). Todavia, num baile em Crotona, Pitágoras percebeu a atroz realidade. A música era capaz de fazer dançar a mais bela rústica, bem como a mais certeira pítia de Delfos. Feito que nunca conseguiria igualar exibindo o seu áspero teorema.»

«Quando se nasce, a nossa morte sai do túmulo, como nós do ventre. Devagar, corcunda e velha, contrasta com a nossa juventude. Nós somos crianças quando ela é uma velha enrugada, fraca e decrépita. E todos nós vamos envelhecendo enquanto ela vai rejuvenescendo. A certa altura da vida, os dois rostos, o nosso e o da nossa morte, cruzam-se e são iguais como num espelho. Acontece por volta dos trinta. Por isso, quando um homem antes de morrer vê a cara da morte, nesse trágico instante, ela tem a cara que nós tínhamos quando saltámos do ventre materno: uma cara de bebé recém-nascido.»

The Soaked Lamb nos Açores



Em São Miguel, tínhamos uma carrinha à disposição. Eu não conduzi, com receio de ir parar ao Corvo. Pude, portanto, sentar-me nos lugares do fundo, onde os solavancos impedem algumas maravilhas da natureza de serem fruídas com rigor geométrico. Espero lá voltar para o ano que vem, quando conseguir fazer a digestão do almoço de sexta passada: um cozido das Furnas.
Não vi um único cachalote (as lojas de turistas não tinham), mas cheguei a comer alguns bolos lêvedos, cuja receita contém uns misteriosos "Ovos Pastorizados" [sic]. No final do dia entrei no palco, com a destreza dum cetáceo a fugir de uma lula gigante. Tudo graças à cerveja Especial.

9/08/2009

São Francisco Blues, nos Açores

Vamos lá tocar esta sexta, no Campo de São Francisco. O John Lee Hooker Jr. também lá estará (e não é só para nos ouvir). Se o leitor continental viver perto dum aeroporto, apareça.

Trama, Theatro Bar, Festa do Avante!

Gosto muito de tocar com prateleiras de livros na assistência e, tenho a certeza, alguns deles teriam batido palmas se tivessem braços. Foi o que aconteceu na livraria Trama, que sabe escolher exemplarmente os títulos que tem à venda. O concerto correu bem e a reacção do público foi muito lisonjeira. Um dos ensaios de George Steiner estava completamente histérico. Ninguém imagina como é gratificante ter Homero na assistência, com aquele semblante de Ilíada. Ignorei o pessimismo de Cioran. Afinal, tocamos blues. Se existe alguém com capacidade para pôr os outros realmente deprimidos somos nós e as cenas de sexo dos romances de Miguel Sousa Tavares.
À saída tentámos roubar o amplificador do Ricardo, mas fomos apanhados -- com a boca no trombone (instrumento que, por sinal, nenhum de nós sabe tocar) -- quando íamos arrumá-lo no carro. Fica para a próxima.
Sábado, foi a vez de tocar no Theatro Bar, em Tomar. É um espaço recheado de pessoas incrivelmente simpáticas e um cinema. Demos muitos autógrafos, mas tivemos de sair cedo, sem desfrutar do modesto sucesso mundial que ali contraímos. Nenhum meteorologista seria capaz de prever aquele calor da assistência.
No dia seguinte, domingo, tocámos na Festa do Avante. O público estava como o menino Jesus nas palhinhas, ora sentado, ora deitado, e não ouvia nada do que o meu microfone dizia. É uma peça genuína dos anos 40 e isso faz com que tenha muita dificuldade em fazer-se ouvir no século XXI. Por isso, dediquei-me a um silêncio oportuno. É assim a vida, cheia de altos e baixos. E nesse dia o que estava alto era a minha guitarra: não me deixava ouvir mais nada. Isso pode ter sido uma bênção.

9/07/2009

Esta sexta acabou com pensos nos calcanhares

Ofereceram-me uns sapatos feitos à mão. Infelizmente, ainda não estão feitos ao pé.
O anafado Rigaut fora casado durante vinte e sete anos. Umas verdadeiras bodas alquímicas, um casamento entre o espírito e a matéria: ela com espírito de sacrifício e ele com matéria gorda.
("A Carne de Deus", pág. 152)

8/31/2009

Concertos

Avante2009_1

Trama, 4 de Setembro, 22.30h.
Theatro Bar, 5 de Setembro, 23.30h.
Festa do Avante!, 6 de Setembro, 16h.

8/20/2009

Screaming Jay Hawkins

Screaming Jay Hawkins era um daqueles pugilistas que queria cantar ópera. O mundo do boxe está cheio de casos destes. Não é raro entrar num ginásio, chamar boxeur a alguém (no bom sentido), e ouvir: "Sou um cantor de ópera, isto é provisório". Quantas vezes se ouve, nos ringues, entre dois assaltos, desabafos sentidos: "eu devia era ser cantor lírico". E que prazer dá vê-los retomar o combate com mais falsete no uppercut e um pequeno Puccini no jogo de pernas.
Voltemos a Screaming Jay Hawkins. Com o insucesso desta incursão pelo mundo da ópera, virou-se para o vudu e para os lamentos em pentâmetros jâmbicos e os doze (ou oito, sejamos complacentes com os números) compassos, ou seja, os blues. Fez muito bem. Isso e filhos. Fez cerca de setenta e cinco filhos a várias mulheres. Há rumores que afirmam ser um número menor, que Screaming Jay Hawkins não teve mais de cinquenta e poucos rebentos. São pessoas que querem descredibilizar os blues. É por isso que ninguém vai aos estádios.
Voltemos a Screaming Jay Hawkins. Era um homem que gostava de se apresentar vestido de leopardo, com ossos a atravessarem-lhe o nariz. Ficou muito conhecido com “I Put a Spell on You” e com aquela música cujo tema é a prisão de ventre e o trânsito intestinal, chamada Constipation Blues (actuava com uma retrete no palco. Não estou a brincar). E também tinha esta particularidade a ter em conta: fazia, com as suas imensas cordas vocais, um ruído bizarro – perdoe-me o estrangeirismo, mas não encontro o portuguesismo necessário –, que era como um porco na matança, mas na nota certa.
Como não existem lendas vivas dos blues que não tenham morrido já, Screaming Jay Hawkins deu-se por falecido no ano 2000. Cerca de setenta anos depois de ter nascido.

Conversa com uma criança de 3 anos

-- Não precisas de atirar-te para o chão quando chutas a bola.
-- Sim, sim. Como os meninos da televisão.

8/16/2009

A conquista da infelicidade

Há dois dias fui à piscina de Avis. Deitei-me na relva com um livro chamado “The Situation Is Hopeless, But Not Serious (The Pursuit of Unhapiness)”, do Watzlawick, e que ensina a conquistar a infelicidade*. Ri-me com algumas das situações retratadas, o que pode significar que o livro ainda não estava a fazer efeito. Afinal, nem é preciso dizer isto, a conquista da infelicidade não deve ser feita a rir.
Pude reparar que, naquela piscina, havia muita gente sem um livro que apontasse o caminho para a desgraça. Por outro lado, foi fácil constatar – e eu constato muito – que, mesmo sem um manual condigno, muitos banhistas traziam uma boa parte da sua infelicidade acumulada na barriga, no rabo e, por vezes, nas coxas (repare que usei a palavra “banhista” referindo-me a pessoas de porte mais barroco, em vez de, por exemplo, “veraneante”. O motivo é evidente: a palavra “banhista” está muito mais próxima do feminino de banho).
Duas horas depois, levantei-me da relva e fui para casa. Não cheguei a tirar a roupa (nem sequer a minha) nem senti necessidade de tomar banho, pois já tinha tomado duche de manhã.
Não quero despedir-me do leitor sem uma palavra de conforto, depois dum texto tão deprimente. Para que saiba, preocupo-me consigo. Se é daquelas pessoas esquisitas que gosta de sentir alegria pela vida, o processo é simples: Para ser feliz, basta seguir o caminho que lhe está vedado**.

*Para um sportinguista é mais fácil.
**No caso de ser um homem numa piscina pública, é o balneários das senhoras.

Vida no campo

Este mês, a conta da creche do meu filho são 18 euros.
A Grécia de hoje é conhecida pela sua antiguidade. A Grécia antiga, pela sua modernidade.

8/11/2009

Cerveja Orval

É uma trapista. Existem sete no mundo, uma delas é holandesa e as outras seis são belgas: para se ver como o mundo é pequeno. Todas elas têm a particularidade de ser produzidas ou supervisionadas por monges trapistas.
A garrafa da Orval é incomum e o rótulo, antes de se consumir três destas cervejas, é horrível. Depois da terceira, pode parecer pior. É do álcool. Para ser franco, acho aquele rótulo uma ressaca.
A cerveja é complexa – como dizem os especialistas – e, consta, pode envelhecer até aos cinco anos, ficando com inúmeras rugas na garrafa. Gostaria de conhecer a pessoa que, tendo cervejas destas em casa, fica cinco anos à espera. Ainda se dizem especialistas. Digo isto, mas eu, um dia, ainda hei-de cometer a ousadia de fazer uma Orval esperar cinco anos. Aproveito e vou à Loja do Cidadão pagar umas prestações à Segurança Social que tenho em atraso.
O mais notório – mesmo para o leigo perfeitamente incapaz de perceber a trama que se esconde debaixo da espuma – é o sabor daquelas leveduras selvagens chamadas brettanomyces. A maior parte das cervejas modernas (excepção, por exemplo, das lambic) usa leveduras domesticadas e evita que o mosto seja contaminado por outros fermentos e microrganismos. A maior parte das leveduras que andam pelo ar, são más. Evite-as. Já vi algumas alojadas em cavidades nasais e unhas dos pés de terceiros. Mas este não é o caso da Orval: durante o segundo estágio da fermentação, acrescentam-lhe estas brettanomyces (que entretanto já foram domadas pelos monges – a fé opera milagres na conversão de seres unicelulares) e adicionam mais lúpulo. Isso dá-lhe aquele gosto (ou será complexidade? Se eu fosse um especialista isto seria mais simples. Ou seria ao contrário? Mais complexo?) tão estranho e tão presente. É precisamente esta característica que lhe confere um charme filosófico com influências de Schopenhauer e Cioran: é uma cerveja tão amarga como a vida. Especialmente a minha.
Tem menos álcool do que as outras trapistas (6,8%), não é nada opaca – ao contrário de certas contas bancárias –, tem um bom aroma e o seu bronzeado é de um dourado profundo.
Resultado: é uma excelente cerveja que deve ser apreciada com calma, a olhar para o frio que não faz nestes dias de Agosto. Mas se o meu amigo leitor é daquelas pessoas que está à espera duma cerveja que é um docinho – como são algumas cervejas de abadia –, está muito enganado. Estava à espera daquele sabor a caramelo Royal? Desengane-se. Estamos a falar de coisas potáveis. E, a todos os níveis, complexas. Simples, não é?

É mais ou menos como aquela do copo

Uma pessoa sincera diz meias-verdades. Um mentiroso diz meias-mentiras.

8/10/2009

Alice

A ler aqui.

Via Senhor Palomar.

8/09/2009

O peso bruto que inventou a voz do Tom Waits

Howlin' Wolf, cujo verdadeiro nome era Chester Burnett, tinha quase dois metros, pesava perto de dezasseis toneladas – para ser preciso, cerca de 140 quilos em jejum – e, disse alguém, tinha voz de maquinaria pesada. Com aquela voz era perfeitamente possível lavrar os inúmeros hectares do meu terreno (três, para ser exacto) em menos de uma manhã. Já pensei em virar para lá a aparelhagem, para ver o que acontece, mas tenho medo de derrubar as oliveiras.
Howlin' Wolf nasceu em White Station, Mississippi, e aprendeu a tocar harmónica com Sonny Boy Williamson II (não vou falar deste bluesman para não me emocionar demais). A mãe deserdou-o por um motivo tão banal no mundo dos blues que me custa escrevê-lo: por tocar a música do Diabo. E assim, aos treze anos, Chester Burnett viu-se obrigado a fugir de casa. Esta história poderia ter resultado na criação de um país na cauda da Europa mas, felizmente, acabou bem, com discos gravados e tudo.
Howlin' Wolf tinha preferência por fatos pretos que ficavam lindamente com a gravidade da voz. Este pequeno maneirismo do seu carácter devia-se a, um dia, ter visto uma imagem de Blind Lemon Jefferson assim vestido. O fato era preto porque, nessa altura, as fotografias reproduziam fielmente o mundo a preto e branco daquelas pessoas.
Dizem que Howlin' Wolf morreu – como se eu não o tivesse visto o mês passado na paragem do 28 para Moscavide – em 1976. Foi Howlin' Wolf que, juntamente com Blind Willie Johnson, inventou a voz do Tom Waits. Nunca vi ninguém dar-lhe o crédito por isso.



No video acima, o leitor atento terá reparado que o contrabaixista se semelha, com exactidão metafísica, a Willie Dixon. O motivo de tal prodígio é que é mesmo Willie Dixon (haveremos, num futuro próximo, de falar deste boxeur). Por agora, ouça Blind Willie Johnson:

7/31/2009

O som é mais rápido do que a luz quando esta está apagada.

História universal da infâmia

O Pedro foi roubado enquanto andava, descontraído, pela internet.

7/30/2009

Se chamamos miolo ao interior dos livros, ao exterior faria todo o sentido chamar côdea e contracôdea.

Sobre a morte de Michael Jackson (julgava, o leitor, que tal facto me havia passado ao lado – como acontece com tantas coisas?)

Se, precipitadamente, julgou assim, tem toda a razão. Só soube hoje, com algum atraso, que Michael Jackson morreu há quase dois anos.
Espero que haja cerveja no Céu. Se não houver, assegurou-nos Rimbaud, há no Inferno (no fundo é só descer as escadas até ao bar).

7/24/2009

Lábio Cortado

"Lábio Cortado", de Rui Almeida, já está disponível.

The Soaked Lamb debaixo da Luz de Palco, entre móveis

O fotógrafo Alípio Padilha vê-nos assim através das suas lentes. As fotografias foram tiradas na loja de móveis, roupas e adereços retro, Geraldine. Nós, especialmente de frente, somos muito parecidos com um estaleiro de construção civil, mas a destreza do fotógrafo faz isto:
geraldine

7/23/2009

Gripe A

É uma festa.

7/20/2009

Blind Blake

Blind Blake, que era tão cego quanto Homero, Tirésias, Jorge Luis Borges ou Lucílio Baptista (estou a exagerar, ninguém é assim tão cego), tem a particularidade de ter sido, na minha modesta opinião (uma das únicas verdadeiras), um dos maiores guitarristas de sempre e foi ele que, basicamente, inventou o estilo de Piedmont. Para quem não sabe que estilo é este, uma pequena explicação: está a ver aquele polegar que tem (esperemos) nas suas mãos? Muito bem, com esse acrescento conseguimos pedir boleia e destruir o Planeta, mas mais importante do que isso, por incrível que pareça, é uma coisa chamada síncope. Mas não desmaie, esta síncope -- que se consegue através do polegar -- é apenas rítmica (no nosso caso), artística (no caso de Blind Blake). O Piedmont Style é o correspondente na guitarra ao ragtime do piano. Compreendeu? Se sim, envie-me um email a explicar.
Não há nada neste mundo que não tenha sido antes imaginado, disse Blake. Poderia ter sido Blind Blake, mas foi William Blake. O que acontece, só para contrariar o poeta, é que nunca nenhum ser humano imaginou que o polegar poderia ser usado da forma como Blind Blake o fez. Se é que aquilo era verdadeiramente um polegar.
Como quase todos os bluesmen, ninguém sabe ao certo o seu verdadeiro nome, onde nasceu ou como morreu. Sabe-se, todavia, que Blind Blake foi a primeira pessoa do mundo a confessar não saber o que “diddie wa diddie” significa. Até fez uma música sobre isso, onde, de forma tão pertinente, manifesta um desejo comum a tanta gente: I wish somebody would tell me what Diddie Wa Diddie means.

Como diria o pórtico do templo de Apolo: conhece-te a ti mesmo

Sábado, no jornal "Weekend Económico", havia um texto sobre mim. Foi tão lisonjeiro que fiquei com vontade de me conhecer.

7/19/2009

Sem rede

Tropecei a falar ao telefone, mas foi a chamada que caiu.

7/17/2009

Veneza é aquela cidade que imita estas fotografias.

7/15/2009

Lançamento à distância

Tenho pena de não estar no dia certo (estarei alguma vez?) no Mercado de Oeiras. Ficarei aqui, a esta distância infame, com muita pena de não ver o lançamento destes dois livros (Planeta Tangerina):

7/13/2009

Lemniscata

Adão, logo no Princípio (diz-nos o Bereshit -- na Torah -- ou o Talmude, ou talvez outro livro do Paulo Coelho, já não tenho a certeza), teve de nomear os bichos todos. Parece uma tarefa impossível, mas não é: o meu filho, que tem pouco mais de dois anos e meio, está a passar exactamente essa fase. E por falar nisso, em nomear, fui agraciado, através da Hipátia (aquela do lobby neoplatónico que acabou morta nas mãos de cristãos enfurecidos. Sabe qual é, não sabe?) com o prémio Lemniscata. Em suma: vejo-me obrigado a não contaminar outras pessoas idóneas que, tenho a certeza, até lavam as mãos com frequência. A fazê-lo seria uma razia por essa coluna de links à sua direita.
O símbolo, de nome lemniscata, é um daqueles oitos que já não se aguentam em pé e que a matemática diz serem o infinito. Como se o infinito andasse a dormir.

7/08/2009

Mais uma divulgação, desta vez em proveito próprio

Soube hoje que fiquei em primeiro numa final dum concurso de crónicas em que participei (já tinha tentado em concursos em que não participei, mas os resultados não foram tão bons). Creio que os membros do júri ainda não recuperaram a consciência.
Fica aqui um exemplo das ditas crónicas. Esta é sobre a burocracia:


Todos nos lembramos de, em criança, contarem-nos histórias terríficas – nas noites de inverno à volta da lareira – de fantasmas, mortos-vivos, almas penadas e monstros nefandos. A mim, essas histórias não diziam nada: na altura não ligava muito ao que se passava na política. As que me provocavam verdadeiramente o horror – o mesmo horror de Conrad (Horror! Horror! Dizia ele) – eram as histórias de repartições públicas, especialmente de finanças. Destas recordo, com especial insónia, a do Sétimo Bairro Fiscal, mesmo ao pé da casa dos meus pais. Contaram-me – e juravam ser verdade – que muitos papéis que lá entraram nunca mais saíram. Lembro-me especialmente bem da história duma certidão que foi brutalmente carimbada para, no final, ser amarrotada e, horror, despejada no lixo por baixo de uma secretária obsoleta. Uma certidão que nem sequer tinha feito dezassete anos.
De resto, uma pessoa comum, sem treino militar específico, quando atacada pela burocracia, tem muito poucas possibilidades de sobreviver. Mesmo que ande com crucifixos e estacas de madeira.
Um amigo dum amigo (não vou dizer nomes) entrou um dia num desses edifícios para pedir uma certidão. À sua frente surgiu um homem fabuloso – que poderia ser um mito grego – com aqueles óculos de massa que caracterizam todos os mitos clássicos, um metro e sessenta de altura, calvo e camisa aos quadrados. O amigo do meu amigo disse-lhe com uma coragem de pedra vulcânica:
– Queria uma certid...
O outro interrompeu-o com a sua voz de abismo, helénica, naquele tom de quem pede desculpa:
– É muito simples: tem de me trazer uma cópia do cartão de cidadão assinada e autenticada em notário, um ganso-patola-de-patas-azuis autografado por Darwin e o cartão de eleitor. Ainda acresce trazer uma prova inequívoca da existência de Deus sem qualquer referência a São Tomás de Aquino, bem como uma declaração de impostos do ano transacto e um elefante indiano. Evidentemente, todos os papéis deverão ser verdes.
O amigo do meu amigo ficou lívido percebendo que ali, mesmo à sua frente, encontrava-se o absurdo da existência. E quem diria que o absurdo da existência usava camisa aos quadrados e óculos de massa?
O amigo do meu amigo perguntou:
– Como verdes?
A Esfinge teve dó:
– Calma – disse ele, jocoso, enquanto o amigo do meu amigo recuperava as cores –, estava a brincar. Os papéis não têm de ser verdes. Podem ser brancos desde que assinados pelo segundo rei da primeira dinastia sueca.
Eu próprio entrei nessa mesma repartição num dia de coragem. O prédio fica numa rua paralela à antiga casa dos meus pais, entre o período Câmbrico e o Paleolítico Superior, mesmo numa esquina. Lá dentro, junto a um balcão é possível ver vários fósseis da era Neoproterozóica, entre eles uma máquina de escrever e um ábaco assírio. Também existem raridades de períodos mais recentes: O elo perdido do darwinismo, por exemplo, está no gabinete à esquerda de quem entra. Felizmente evita atender ao balcão.
A fila era grande, mas eu tinha uma vida inteira pela frente (de qualquer modo levava comigo os papéis para a aposentadoria, não fosse aquilo prolongar-se mais do que esperava). Quando, enfim, chegou a minha vez, respirei fundo e dirigi-me a um funcionário que me lançou um olhar tão burocrático que quase lhe estendi o meu número de contribuinte e uma requisição do médico antes que ele me pedisse qualquer coisa. Senti o horror no corpo.
Ele interpelou-me invectivando um rol de coisas necessárias e eu reagi sem temperança, mas em legítima defesa:
–Vocês representam o que de pior há na sociedade, seus burocratas! – gritei eu.
– Mentira! Nós aqui nunca representamos. Somos genuínos – contra-atacou ele, calmamente, com o seu porte de dossier dos anos setenta.
– Não passam duma invenção de Kafka – continuei eu, ameaçando-o com o meu colar de alhos. – Um produto do Império Austro-Húngaro.
– Ha, ha, ha! – riu o monstro. – Isso é uma superstição tola que pretende colmatar a ignorância humana, uma teoria infantil que aspira explicar todas aquelas coisas que a humanidade não entende. Kafka nem sequer é considerado um dos nossos profetas. A verdade é que a primeira repartição nasceu em Minos, foi uma criação de Dédalo. Julgava, o senhor, que o labirinto de Creta tinha voltas sobre voltas, voltas e mais voltas, julgava que era uma coisa imensa em forma de intestinos? Não seja ridículo. Eram apenas alguns arquivos, carimbos e um balcão. Veja a genialidade dos gregos antigos! Um labirinto com menos de vinte metros quadrados e apenas um funcionário.
O homem calou-se enquanto fingia arquivar uma folha. Depois olhou-me com a sua voz tímida e vociferou com aqueles olhos de tempo perdido:
– Somos engraçados.
– Como assim?
– É o que as pessoas nos dizem quando, educadamente, referimos a necessidade primária de adquirir certo papel-para-ter-outro-papel-que-por-sua-vez-precisa-de-outro papel-e-respectivo-selo (e isto ad infinitum). Dizem, ao ouvir isto, que somos uma anedota. Nós, caro senhor, fazemos rir. Temos sentido de humor.
– Isso só pode ser piada.
– Viu?

Gozblau

Sugiro, como quem diz ordeno, que o leitor se dirija até este site para ver o excelente trabalho do Alex.