Publicado também aqui.
12/15/2009
Tártaro
12/10/2009
As grandes aspirações do Homem concretizadas
12/04/2009
Do Gulistan, com toda a ingenuidade
«O que queres dizer?», perguntou o rei. E o condenado respondeu: «O meu castigo será consumado em alguns instantes, mas a culpa pesará sobre ti para sempre.»
11/28/2009
Ontem, no restaurante, um episódio sin grasa
11/27/2009
Só para contrariar
(Inédito da Enciclopédia da Estória Universal)
11/26/2009
11/23/2009
Prémio literário Maria Rosa Colaço 2009
11/14/2009
11/10/2009
Uma dúzia de dedos

Uma das mais notáveis coincidências da anatomia humana é o facto de a maior parte das pessoas ter dez dedos nas mãos. É uma soma que me surpreende sempre que penso em Hound Dog Taylor. Ele tinha uma dúzia, como as caixas dos ovos, de dedos nas mãos. Diz-se que tentou, a certa altura da vida, cortar o excedente, mas todos sabemos que, especialmente para quem faz dieta ou é ministro das Finanças, é muito difícil cortar o excedente.
Na verdade Hound Dog é um anti-Django. Django Reinhardt tinha oito dedos úteis. E, com tão poucos dígitos, era um virtuoso, característica que Hound Dog Taylor evitava. Diz quem sabe apreciar música, que Django era um primor enquanto Hound Dog Taylor não primava pela técnica. Até pode ser, mas soava bem. Foi ele mesmo que o disse: "When I die, they’ll say, ‘He couldn’t play shit, but he sure made it sound good!’"
Theodore Roosevelt "Hound Dog" Taylor nasceu em 1915 (há quem diga que foi em 1917) e morreu em 1975. O nome presidencial é apenas mais uma tragédia que pode acontecer na dramática vida de um bluesmen.
11/04/2009
Vivat Triple ou a questão da cuba aberta

Deus, não para provar a sua existência, mas para provar boas cervejas, criou os belgas (com os hebreus, por exemplo, não conseguiu um efeito tão espectacular, apesar da aliança, da circuncisão, de escreverem da direita para esquerda e isso tudo). Falo dos belgas porque a Vivat Triple é francesa. Mas sabe mesmo a belga.
Ora, ainda bem que me pergunta o que é uma triple. Estava mortinho por responder, é tão raro eu saber a resposta. Triple? pergunta o leitor. É muito simples, é uma cerveja com maior quantidade de malte, três vezes mais, para ser exacto. Esta Vivat vem numa garrafa de porcelana ou lá que metal é aquele, é muito bonita, e ainda nos garante, no rótulo, que é fermentada com a cuba aberta. Sem malícia, leitor, não comece já a imaginar a cuba aberta desta cerveja. Isto significa apenas que o fermentador não está isento de ser invadido por bactérias estranhas ao serviço, algumas selvagens, eventualmente indesejáveis, e, até, alguns organismos não oficiais que melhoram o processo de fermentação e o sabor da cerveja. No caso da Vivat Triple não sinto nada selvagem nas papilas gustativas. Ou seja, a cuba está aberta, sim senhor, mas numa sala fechada, o que garante a não contaminação do mosto por corpos estranhos, monstros microscópicos e fiscais da câmara. Não acho que esta exposição do fermentador ao ar seja uma grande vantagem, apesar de ser um método tradicional. Há, porém, quem jure que traz muitas coisas boas, mas, no que respeita ao meu paladar e sem auxílio de um bom astrólogo, não consigo identificar essas influências subtis.
Resultado: é uma cerveja excelente, aloirada e doce, com um sabor intenso a malte (sem exageros), com 8,3% de álcool, capaz de rivalizar com as melhores triple, as belgas verdadeiras.
Como diria Teixeira de Pascoaes, se por acaso se tivesse lembrado disto:
10/27/2009
10/23/2009
O booktrailer da Enciclopédia da Estória Universal. Animado pela Estrela Lourenço e sonorizado pelo José Mendes.
10/16/2009
Por causa das conchinhas
Na minha hierarquia celeste – que compreende quatro assoalhadas e uma varanda relativamente pequena –, Diógenes de Oenoanda (século II d. C.) ocupa um lugar privilegiado junto do sofá da sala, perto da lareira. Esse lugar cimeiro tem feito com que, cada vez que tenho de escrever sobre alguma coisa, desde a próxima derrota do Sporting à criação de hamsteres, meto-o na conversa. Neste caso, porque esta discussão, sobre o suporte dos livros, não é nova. Lembro-me bem do tempo em que Diógenes de Oenoanda mandou construir um muro gravado com a súmula do pensamento de Epicuro. Vinte e cinco mil palavras numa parede de 80 metros de comprido por três de altura. Isso é que era um suporte físico: pedra fácil de ler e acessível a todos. Foi essa, aliás, a ideia de Diógenes. Ele era rico o suficiente para dar a sua maior riqueza, que era, no caso dele, o epicurismo. Há outras pessoas que se contentam com dinheiro. E agora, imagine o leitor, o arrepio que sentiram as distribuidoras ao colocar a hipótese daquele suporte poder vir a ter futuro.
E agora chegamos à conclusão onde se fala das tais conchinhas, mas o leitor, curioso como é, deverá dirigir-se a este blog para ler o que falta. É lá que está o texto completo.
10/15/2009
10/12/2009
Anticlericalismo primário
A Ler
(Revista Ler, Outubro de 2009)
10/10/2009
e encontre no dentro a magia do fora
e no fora a magia do dentro.
Nesta altura não devem contar-se as estrelas
porque elas já estarão todas dentro do peito.
(Alburneo, "A Criança Mágica-Receita para fazer um bolo")
10/07/2009
O Mar em Casablanca

[Foto Maria João Lima]
É hoje, às 22h00, na Cantina (Lx Factory, em Lisboa), o lançamento de O Mar em Casablanca. Mais informações no blog do autor.
Eu, lamentavelmente, porque estou no Campo em Casa Branca, não irei.
10/06/2009
Victor Hugo escreveu um livro muito grande chamado “Os Miseráveis”. Contudo, apesar de não ser pequeno, fê-lo terminar exactamente no fim, que é precisamente onde as coisas finitas se devem finar. Mas algures, entremeado no segundo volume, livro sétimo, avisa-nos o Victor: “Este livro é um drama, cuja primeira personagem é o infinito. A segunda é o homem.” E o leitor quando lê sobre a envergadura da primeira personagem, não consegue evitar a preocupação: impudente, vai à estante, retira o quinto volume, e certifica-se que tem um final, que a história acaba. É exactamente isso que acontece com as crianças em determinada fase, nos primeiros meses. Têm a ousadia de se julgar infinitas até que se apercebem dos próprios pés e, nesse momento, compreendem que terminam ali. Afinal, não passam da segunda personagem da obra de Victor Hugo.
-- O macaco já é um homem.
O darwinismo é uma teoria de crianças.
And the people in the houses
All went to the university,
Where they were put in boxes
And they came out all the same,
And there's doctors and lawyers,
And business executives,
And they're all made out of ticky tacky
And they all look just the same.
(Malvina Reynolds, "Little Boxes")
10/04/2009
10/02/2009
Ah, o Oriente…
Diz assim, o meu médico:
- Eles aumentam os impostos dos carros velhos, de modo a que as pessoas comprem novos. Os velhos, mandam para a China.
As receitas que ele passa para tratar do mundo, deixam-me pior da vesícula.
Grandes traduções
10/01/2009
Não gostar de dinheiro tem um preço
Via Blogtailores.
9/28/2009
Sapatos e Chapéus
(Enciclopédia da Estória Universal, letra "S")
9/27/2009
9/24/2009
9/21/2009
9/18/2009
9/16/2009
Convite

O lançamento será neste sábado, dia 19, pelas 22h, na livraria Ler Devagar (LX Factory), inclui um concerto dos The Soaked Lamb e será apresentado pelo José Mário Silva.
A morada é esta: Rua Rodrigues de Faria, 103 - Edifício G.03 - 1300-501 Lisboa (antiga Gráfica Mirandela em Alcântara)
9/15/2009
Próximo livro

Lançamento no dia 19 de Setembro, às 22h, na livraria Ler Devagar (LX Factory).
Texto da contracapa:
Este é um livro de factos - e de ficções, burlas, citações - esquecidos ou ignorados pela História e encruzilhados uns nos outros em forma de labirinto. Um espaço entre mordomos e coronéis, metáforas, mentiras, assassínios, deuses duplos, cabalistas fabulosos, ascetas hindus e narrativas absolutamente orientais.
«A matemática e a música são exactamente a mesma coisa (exceptuando, talvez, um ou outro sucesso pop). Todavia, num baile em Crotona, Pitágoras percebeu a atroz realidade. A música era capaz de fazer dançar a mais bela rústica, bem como a mais certeira pítia de Delfos. Feito que nunca conseguiria igualar exibindo o seu áspero teorema.»
«Quando se nasce, a nossa morte sai do túmulo, como nós do ventre. Devagar, corcunda e velha, contrasta com a nossa juventude. Nós somos crianças quando ela é uma velha enrugada, fraca e decrépita. E todos nós vamos envelhecendo enquanto ela vai rejuvenescendo. A certa altura da vida, os dois rostos, o nosso e o da nossa morte, cruzam-se e são iguais como num espelho. Acontece por volta dos trinta. Por isso, quando um homem antes de morrer vê a cara da morte, nesse trágico instante, ela tem a cara que nós tínhamos quando saltámos do ventre materno: uma cara de bebé recém-nascido.»
The Soaked Lamb nos Açores

Em São Miguel, tínhamos uma carrinha à disposição. Eu não conduzi, com receio de ir parar ao Corvo. Pude, portanto, sentar-me nos lugares do fundo, onde os solavancos impedem algumas maravilhas da natureza de serem fruídas com rigor geométrico. Espero lá voltar para o ano que vem, quando conseguir fazer a digestão do almoço de sexta passada: um cozido das Furnas.
Não vi um único cachalote (as lojas de turistas não tinham), mas cheguei a comer alguns bolos lêvedos, cuja receita contém uns misteriosos "Ovos Pastorizados" [sic]. No final do dia entrei no palco, com a destreza dum cetáceo a fugir de uma lula gigante. Tudo graças à cerveja Especial.
9/08/2009
São Francisco Blues, nos Açores
Trama, Theatro Bar, Festa do Avante!
À saída tentámos roubar o amplificador do Ricardo, mas fomos apanhados -- com a boca no trombone (instrumento que, por sinal, nenhum de nós sabe tocar) -- quando íamos arrumá-lo no carro. Fica para a próxima.
Sábado, foi a vez de tocar no Theatro Bar, em Tomar. É um espaço recheado de pessoas incrivelmente simpáticas e um cinema. Demos muitos autógrafos, mas tivemos de sair cedo, sem desfrutar do modesto sucesso mundial que ali contraímos. Nenhum meteorologista seria capaz de prever aquele calor da assistência.
No dia seguinte, domingo, tocámos na Festa do Avante. O público estava como o menino Jesus nas palhinhas, ora sentado, ora deitado, e não ouvia nada do que o meu microfone dizia. É uma peça genuína dos anos 40 e isso faz com que tenha muita dificuldade em fazer-se ouvir no século XXI. Por isso, dediquei-me a um silêncio oportuno. É assim a vida, cheia de altos e baixos. E nesse dia o que estava alto era a minha guitarra: não me deixava ouvir mais nada. Isso pode ter sido uma bênção.
9/07/2009
Esta sexta acabou com pensos nos calcanhares
("A Carne de Deus", pág. 152)
8/31/2009
Concertos

Trama, 4 de Setembro, 22.30h.
Theatro Bar, 5 de Setembro, 23.30h.
Festa do Avante!, 6 de Setembro, 16h.
8/20/2009
Screaming Jay Hawkins
Voltemos a Screaming Jay Hawkins. Com o insucesso desta incursão pelo mundo da ópera, virou-se para o vudu e para os lamentos em pentâmetros jâmbicos e os doze (ou oito, sejamos complacentes com os números) compassos, ou seja, os blues. Fez muito bem. Isso e filhos. Fez cerca de setenta e cinco filhos a várias mulheres. Há rumores que afirmam ser um número menor, que Screaming Jay Hawkins não teve mais de cinquenta e poucos rebentos. São pessoas que querem descredibilizar os blues. É por isso que ninguém vai aos estádios.
Voltemos a Screaming Jay Hawkins. Era um homem que gostava de se apresentar vestido de leopardo, com ossos a atravessarem-lhe o nariz. Ficou muito conhecido com “I Put a Spell on You” e com aquela música cujo tema é a prisão de ventre e o trânsito intestinal, chamada Constipation Blues (actuava com uma retrete no palco. Não estou a brincar). E também tinha esta particularidade a ter em conta: fazia, com as suas imensas cordas vocais, um ruído bizarro – perdoe-me o estrangeirismo, mas não encontro o portuguesismo necessário –, que era como um porco na matança, mas na nota certa.
Como não existem lendas vivas dos blues que não tenham morrido já, Screaming Jay Hawkins deu-se por falecido no ano 2000. Cerca de setenta anos depois de ter nascido.
Conversa com uma criança de 3 anos
-- Sim, sim. Como os meninos da televisão.
8/16/2009
A conquista da infelicidade
Pude reparar que, naquela piscina, havia muita gente sem um livro que apontasse o caminho para a desgraça. Por outro lado, foi fácil constatar – e eu constato muito – que, mesmo sem um manual condigno, muitos banhistas traziam uma boa parte da sua infelicidade acumulada na barriga, no rabo e, por vezes, nas coxas (repare que usei a palavra “banhista” referindo-me a pessoas de porte mais barroco, em vez de, por exemplo, “veraneante”. O motivo é evidente: a palavra “banhista” está muito mais próxima do feminino de banho).
Duas horas depois, levantei-me da relva e fui para casa. Não cheguei a tirar a roupa (nem sequer a minha) nem senti necessidade de tomar banho, pois já tinha tomado duche de manhã.
Não quero despedir-me do leitor sem uma palavra de conforto, depois dum texto tão deprimente. Para que saiba, preocupo-me consigo. Se é daquelas pessoas esquisitas que gosta de sentir alegria pela vida, o processo é simples: Para ser feliz, basta seguir o caminho que lhe está vedado**.
*Para um sportinguista é mais fácil.
**No caso de ser um homem numa piscina pública, é o balneários das senhoras.
8/11/2009
Cerveja Orval
A garrafa da Orval é incomum e o rótulo, antes de se consumir três destas cervejas, é horrível. Depois da terceira, pode parecer pior. É do álcool. Para ser franco, acho aquele rótulo uma ressaca.
A cerveja é complexa – como dizem os especialistas – e, consta, pode envelhecer até aos cinco anos, ficando com inúmeras rugas na garrafa. Gostaria de conhecer a pessoa que, tendo cervejas destas em casa, fica cinco anos à espera. Ainda se dizem especialistas. Digo isto, mas eu, um dia, ainda hei-de cometer a ousadia de fazer uma Orval esperar cinco anos. Aproveito e vou à Loja do Cidadão pagar umas prestações à Segurança Social que tenho em atraso.
O mais notório – mesmo para o leigo perfeitamente incapaz de perceber a trama que se esconde debaixo da espuma – é o sabor daquelas leveduras selvagens chamadas brettanomyces. A maior parte das cervejas modernas (excepção, por exemplo, das lambic) usa leveduras domesticadas e evita que o mosto seja contaminado por outros fermentos e microrganismos. A maior parte das leveduras que andam pelo ar, são más. Evite-as. Já vi algumas alojadas em cavidades nasais e unhas dos pés de terceiros. Mas este não é o caso da Orval: durante o segundo estágio da fermentação, acrescentam-lhe estas brettanomyces (que entretanto já foram domadas pelos monges – a fé opera milagres na conversão de seres unicelulares) e adicionam mais lúpulo. Isso dá-lhe aquele gosto (ou será complexidade? Se eu fosse um especialista isto seria mais simples. Ou seria ao contrário? Mais complexo?) tão estranho e tão presente. É precisamente esta característica que lhe confere um charme filosófico com influências de Schopenhauer e Cioran: é uma cerveja tão amarga como a vida. Especialmente a minha.
Tem menos álcool do que as outras trapistas (6,8%), não é nada opaca – ao contrário de certas contas bancárias –, tem um bom aroma e o seu bronzeado é de um dourado profundo.
Resultado: é uma excelente cerveja que deve ser apreciada com calma, a olhar para o frio que não faz nestes dias de Agosto. Mas se o meu amigo leitor é daquelas pessoas que está à espera duma cerveja que é um docinho – como são algumas cervejas de abadia –, está muito enganado. Estava à espera daquele sabor a caramelo Royal? Desengane-se. Estamos a falar de coisas potáveis. E, a todos os níveis, complexas. Simples, não é?
É mais ou menos como aquela do copo
8/10/2009
8/09/2009
O peso bruto que inventou a voz do Tom Waits
Howlin' Wolf nasceu em White Station, Mississippi, e aprendeu a tocar harmónica com Sonny Boy Williamson II (não vou falar deste bluesman para não me emocionar demais). A mãe deserdou-o por um motivo tão banal no mundo dos blues que me custa escrevê-lo: por tocar a música do Diabo. E assim, aos treze anos, Chester Burnett viu-se obrigado a fugir de casa. Esta história poderia ter resultado na criação de um país na cauda da Europa mas, felizmente, acabou bem, com discos gravados e tudo.
Howlin' Wolf tinha preferência por fatos pretos que ficavam lindamente com a gravidade da voz. Este pequeno maneirismo do seu carácter devia-se a, um dia, ter visto uma imagem de Blind Lemon Jefferson assim vestido. O fato era preto porque, nessa altura, as fotografias reproduziam fielmente o mundo a preto e branco daquelas pessoas.
Dizem que Howlin' Wolf morreu – como se eu não o tivesse visto o mês passado na paragem do 28 para Moscavide – em 1976. Foi Howlin' Wolf que, juntamente com Blind Willie Johnson, inventou a voz do Tom Waits. Nunca vi ninguém dar-lhe o crédito por isso.
No video acima, o leitor atento terá reparado que o contrabaixista se semelha, com exactidão metafísica, a Willie Dixon. O motivo de tal prodígio é que é mesmo Willie Dixon (haveremos, num futuro próximo, de falar deste boxeur). Por agora, ouça Blind Willie Johnson:
7/31/2009
7/30/2009
Sobre a morte de Michael Jackson (julgava, o leitor, que tal facto me havia passado ao lado – como acontece com tantas coisas?)
Espero que haja cerveja no Céu. Se não houver, assegurou-nos Rimbaud, há no Inferno (no fundo é só descer as escadas até ao bar).
7/24/2009
The Soaked Lamb debaixo da Luz de Palco, entre móveis
7/23/2009
7/20/2009
Blind Blake
Não há nada neste mundo que não tenha sido antes imaginado, disse Blake. Poderia ter sido Blind Blake, mas foi William Blake. O que acontece, só para contrariar o poeta, é que nunca nenhum ser humano imaginou que o polegar poderia ser usado da forma como Blind Blake o fez. Se é que aquilo era verdadeiramente um polegar.
Como quase todos os bluesmen, ninguém sabe ao certo o seu verdadeiro nome, onde nasceu ou como morreu. Sabe-se, todavia, que Blind Blake foi a primeira pessoa do mundo a confessar não saber o que “diddie wa diddie” significa. Até fez uma música sobre isso, onde, de forma tão pertinente, manifesta um desejo comum a tanta gente: I wish somebody would tell me what Diddie Wa Diddie means.
Como diria o pórtico do templo de Apolo: conhece-te a ti mesmo
7/19/2009
7/17/2009
7/15/2009
Lançamento à distância
7/13/2009
Lemniscata
O símbolo, de nome lemniscata, é um daqueles oitos que já não se aguentam em pé e que a matemática diz serem o infinito. Como se o infinito andasse a dormir.
7/08/2009
Mais uma divulgação, desta vez em proveito próprio
Fica aqui um exemplo das ditas crónicas. Esta é sobre a burocracia:
Todos nos lembramos de, em criança, contarem-nos histórias terríficas – nas noites de inverno à volta da lareira – de fantasmas, mortos-vivos, almas penadas e monstros nefandos. A mim, essas histórias não diziam nada: na altura não ligava muito ao que se passava na política. As que me provocavam verdadeiramente o horror – o mesmo horror de Conrad (Horror! Horror! Dizia ele) – eram as histórias de repartições públicas, especialmente de finanças. Destas recordo, com especial insónia, a do Sétimo Bairro Fiscal, mesmo ao pé da casa dos meus pais. Contaram-me – e juravam ser verdade – que muitos papéis que lá entraram nunca mais saíram. Lembro-me especialmente bem da história duma certidão que foi brutalmente carimbada para, no final, ser amarrotada e, horror, despejada no lixo por baixo de uma secretária obsoleta. Uma certidão que nem sequer tinha feito dezassete anos.
De resto, uma pessoa comum, sem treino militar específico, quando atacada pela burocracia, tem muito poucas possibilidades de sobreviver. Mesmo que ande com crucifixos e estacas de madeira.
Um amigo dum amigo (não vou dizer nomes) entrou um dia num desses edifícios para pedir uma certidão. À sua frente surgiu um homem fabuloso – que poderia ser um mito grego – com aqueles óculos de massa que caracterizam todos os mitos clássicos, um metro e sessenta de altura, calvo e camisa aos quadrados. O amigo do meu amigo disse-lhe com uma coragem de pedra vulcânica:
– Queria uma certid...
O outro interrompeu-o com a sua voz de abismo, helénica, naquele tom de quem pede desculpa:
– É muito simples: tem de me trazer uma cópia do cartão de cidadão assinada e autenticada em notário, um ganso-patola-de-patas-azuis autografado por Darwin e o cartão de eleitor. Ainda acresce trazer uma prova inequívoca da existência de Deus sem qualquer referência a São Tomás de Aquino, bem como uma declaração de impostos do ano transacto e um elefante indiano. Evidentemente, todos os papéis deverão ser verdes.
O amigo do meu amigo ficou lívido percebendo que ali, mesmo à sua frente, encontrava-se o absurdo da existência. E quem diria que o absurdo da existência usava camisa aos quadrados e óculos de massa?
O amigo do meu amigo perguntou:
– Como verdes?
A Esfinge teve dó:
– Calma – disse ele, jocoso, enquanto o amigo do meu amigo recuperava as cores –, estava a brincar. Os papéis não têm de ser verdes. Podem ser brancos desde que assinados pelo segundo rei da primeira dinastia sueca.
Eu próprio entrei nessa mesma repartição num dia de coragem. O prédio fica numa rua paralela à antiga casa dos meus pais, entre o período Câmbrico e o Paleolítico Superior, mesmo numa esquina. Lá dentro, junto a um balcão é possível ver vários fósseis da era Neoproterozóica, entre eles uma máquina de escrever e um ábaco assírio. Também existem raridades de períodos mais recentes: O elo perdido do darwinismo, por exemplo, está no gabinete à esquerda de quem entra. Felizmente evita atender ao balcão.
A fila era grande, mas eu tinha uma vida inteira pela frente (de qualquer modo levava comigo os papéis para a aposentadoria, não fosse aquilo prolongar-se mais do que esperava). Quando, enfim, chegou a minha vez, respirei fundo e dirigi-me a um funcionário que me lançou um olhar tão burocrático que quase lhe estendi o meu número de contribuinte e uma requisição do médico antes que ele me pedisse qualquer coisa. Senti o horror no corpo.
Ele interpelou-me invectivando um rol de coisas necessárias e eu reagi sem temperança, mas em legítima defesa:
–Vocês representam o que de pior há na sociedade, seus burocratas! – gritei eu.
– Mentira! Nós aqui nunca representamos. Somos genuínos – contra-atacou ele, calmamente, com o seu porte de dossier dos anos setenta.
– Não passam duma invenção de Kafka – continuei eu, ameaçando-o com o meu colar de alhos. – Um produto do Império Austro-Húngaro.
– Ha, ha, ha! – riu o monstro. – Isso é uma superstição tola que pretende colmatar a ignorância humana, uma teoria infantil que aspira explicar todas aquelas coisas que a humanidade não entende. Kafka nem sequer é considerado um dos nossos profetas. A verdade é que a primeira repartição nasceu em Minos, foi uma criação de Dédalo. Julgava, o senhor, que o labirinto de Creta tinha voltas sobre voltas, voltas e mais voltas, julgava que era uma coisa imensa em forma de intestinos? Não seja ridículo. Eram apenas alguns arquivos, carimbos e um balcão. Veja a genialidade dos gregos antigos! Um labirinto com menos de vinte metros quadrados e apenas um funcionário.
O homem calou-se enquanto fingia arquivar uma folha. Depois olhou-me com a sua voz tímida e vociferou com aqueles olhos de tempo perdido:
– Somos engraçados.
– Como assim?
– É o que as pessoas nos dizem quando, educadamente, referimos a necessidade primária de adquirir certo papel-para-ter-outro-papel-que-por-sua-vez-precisa-de-outro papel-e-respectivo-selo (e isto ad infinitum). Dizem, ao ouvir isto, que somos uma anedota. Nós, caro senhor, fazemos rir. Temos sentido de humor.
– Isso só pode ser piada.
– Viu?